Ter Uma Banda Significa Trabalho
Me inspirei para escrever quando li esse post no blog “Era o Que Tinha…” do @Marcel_ezc, eu ia comentar, mas quando vi o comentário estava tão grande que tive que transpor para cá.
O título da postagem é “Jabá e a Falsa Liberdade“. Nele ele fala sobre sua condição de música, comenta sobre jabá e sua história e a desilusão que ele teve com a internet. Você pode ler lá, comenta lá, depois lê aqui e comenta aqui.
A questão é que eu entendo o ponto de vista dele, mas não concordo e vou citar os principais pontos.
“Antigamente (dizem, eu não lembro disso), as rádios tocavam os artistas sem problema algum. Bastava uma fita-demo. Gravada em estúdios de qualidade duvidosa, em K7 mesmo.“
Primeiro que essa época em que as rádios tocavam qualquer coisa suspeito que nunca existiu, mesmo que tenha existido o para se gravar o ”qualquer coisa” era muito mais difícil que atualmente, imagina com qualidade. O que acontecia era os chamados programas de calouros nas rádios, o músico e o violão na frente de um microfone na frente de uma platéia que ia assistir o programa no estúdio da rádio, sim era assim mesmo, tinha platéia nesses programas. Então reforço, era qualquer um que chegava lá e tocava uma vez, mas se fosse ruim – no ponto de vista da rádio e da platéia presente – nunca mais voltava para ser um músico sério. Geralmente o que vingava era MPB, tradicionalista e sertanejo. Depende do lugar do Brasil.
“Passado um pouco do tempo, a arte não bastava. Era preciso um bom networking. Conhecer o cara da gravadora, da rádio, da casa noturna, da puta que pariu. Poucos artistas tinham isso, então criou-se a cultura de que a exposição na mídia era para “poucos eleitos”.”
Não sei direito de que época estamos falando, isso é um conto praticamente… Mas isso também sempre existiu. E quem não tinha isso era verdadeiramente bom e unânime, praticamente um sucesso pronto… um pote d’ouro. Exposição em massa sempre foi para poucos eleitos ou ao menos para quem aparece. Não é o certo, mas é um modo de filtrar um mundo de aspirantes a músico. Claro que para se destacar ser conhecido é necessário, faz parte da política inconsciente humana, tu vai dar mais vantagem para quem tu conhece do que para um cara que tu nunca viu na vida. Agora se “poucos eleitos” for nível social, perceba que só agora é mais fácil de se ter uma gravação, os contatos em épocas atrás – sem internet e com pouco uso de computadores – era muito mais necessários ainda, para o músico da camada social baixa, restava era fazer uma música que ele consiga reproduzir ao vivo e que possa fazer em praticamente qualquer lugar. Por isso que Sertanejo, Samba, Pagode… etc tem apelo popular mais forte, por justamente estar mais perto dos ouvintes.
“Mais um tempo e veio o Jabá.
Um câncer que permanece até os dias atuais.
Formar uma banda, hoje, é sinônimo de prejuízo. Se eu decidir, agora, na frente do computador, formar uma banda, já saio pagando. Ligar para pessoas, marcar ensaio, pagar estúdio só pro começo do início. Ensaiar (pagando) até ficar bom e gravar uma faixa em um estúdio razoável é o mínimo do mínimo. Ter um site oficial e um myspace farão com que você chegue ao status de agulha no palheiro. Existem mais de UM MILHÃO de bandas no Myspace.com”
Concordo que uma banda começa gastando, concordo absolutamente, mas isso também sempre foi assim. De alguma forma sempre se pagou, antes muito mais com tempo, hoje muito com uma soma dos dois. Antigamente quem não começava pagando com dinheiro, geralmente por causa de um agente, já tinha pago em formação musical. Isso muito antes dos anos 80 e quando as gravadoras tinham um casting enorme de músicos eruditos para acompanhar seus interpretes, mas ser músico era bacana, tu fazia um arranjo para Nara Leão, um solo de flauta para o Toquinho… ganhava aquele salário fixo da gravadora (duvido que tenha parte no lucro pela contribuição) e ia para casa feliz.
No entanto, infelizmente, uma banda é um produto. E para esse produto ter visibilidade é necessário algo que está para a música assim como a propaganda está para o comércio: divulgação.
Então o garoto em começo de carreira pensa: as rádios! claro! elas tocam música! Se a música for realmente boa eles tocarão!
Não.
Desculpe decepcionar, mas não.
O Jabá já está institucionalizado. E jabá não é só dinheiro. É produto, é computador, é promoção, é 30 shows de graça. Isso, depois de você ter pago outros jabás, o do produtor e o do divulgador.
O Jabá sempre existiu, o networking sempre existiu. Vou dizer mais, é necessário ter um dos dois. Eu não sei dizer da onde que se tira a idéia que um grupo de pessoas (pense em grupo, não em induvidualismo) tem capacidade para escolher 10 artistas para ouvir, é briga na certa e o resultado não seria muito diferente do que se tem por ai hoje.
Não existe um único culpado, existem vários.
Vou alertar, a culpa é das rádios, do jabá e de todo o resto, mas a culpa é do público também… Tua, leitor, também. Tua que não vai no show daquele artista menor que adora. Tua que não liga para tua rádio pedindo a música. Que só usa camiseta de banda gringa. Tua que acha que tudo que é feito no Brasil é um saco. Tua que não gosta de música em português. enfim, tua que teve o modo de pensar desviado apenas para uma padrão de sonho americano.
Não vamos esquecer a culpa dos músicos, que encaram o trabalho de ser músico de forma leviana, que acha que não precisa ser encarada com compromisso e com trabalho e que acha que o sucesso chegara por conta apenas da música.
ERIC CLAPTON provou para nós que não é possível e que um nome pode influenciar tudo. Você sabia que Layla quase não foi descoberta pelo mundo? Sabe porque? Porque o já conhecido Eric Clapton formou um conjunto chamado Derek and the Dominos e não se citou como integrante, tudo porque ele queria que a música falasse mais alto que a fama dele, que ela falasse por si própria, mas aconteceu que ninguém ia aos shows e os poucos que foram só lá pelas tanta se tocaram “PQP, é o Eric Clapton! TONY, liga para aquele cara da rádio e diz isso!“. Não sei vocês, mas não consigo imaginar minha vida sem Layla e o solo de piano final.
Isso prova que a música não fala por si só, existe realmente um trabalho em torno dela e isso NÃO É RUIM, é extremamente necessário. Música É um produto, deve se encarar isso principalmente se quer ganhar dinheiro com ela. NÃO SEJA INGÊNUO. Se você não quer fazer isso, tenha dinheiro para pagar alguém para fazer isso, se não tem dinheiro e não quer trabalhar devo dizer para desistir de sonhar tão alto.
O avanço tecnológico trouxe a comunicação livre na Internet, trouxe Orkut, Facebook, Twitter, Blog, Site, Spam, MSN, Myspace, Purevolume, Tramavirtual, PalcoMp3, Fotolog e uma pá de coisa que as bandas não tem saco pra atualizar. Trouxe também para a realidade o sonho de gravar em casa. É possível com um bom computador obter boa qualidade de gravação. E a livre concorrência derrubou o preço de uma guitarra fuleira para R$299,00.
Resumindo: ter uma banda ficou tão fácil quanto fazer um miojo.
No mundo moderno quase tudo é mais simplificado, lógico que a música não escapou disso. A seguinte frase perturba “Não tem saco para atualizar“, isso é negação de trabalho e preguiça. Se não consegue atualizar tudo, diminua o número de locais que a sua banda se encontra e use o foco. Não adianta estar em todos os lugares ao mesmo tempo se em nenhum esta você de verdade.
Ok, existem rádios onde o jabá não existe. E é a elas que os músicos que querem alguma divulgação de forma limpa e honesta se apegam. Esses veículos merecem todo o nosso respeito, porém, infelizmente, são poucos.
No geral tudo rádio web que tem poucos ouvintes, logo pouco investimento e por isso são poucos os loucos que fazem algo no amor, vou dizer que esses loucos merecem muito respeito mesmo, porque se tem banda que não quer fazer coisa “no amor” porque eles fazem? Garanto que se eles cobrassem algo das bandas, mais como apoio esse “jabá” seria repudiado.
A Internet é para todos, mas tem um alcance muito pequeno quando não se tem um exército de meninas entre 11 e 16 anos votando o dia inteiro.
A Internet é democrática, mas o download livre não paga as contas de artista nenhum.
Realmente a internet não paga as contas de todo mundo, mas existe aqueles que sabem tirar proveito melhor dela do que outros. Usar um exército de meninas entre 11 e 16 anos é um método, mas não significa muita coisa se tua música foi abaixo do aceitável. Quando se abre uma empresa – o que uma banda é (quando se tem vontade de ganhar dinheiro, repito) – deve ter dedicação, divulgação e trabalho, deve-se procurar um público alvo que se indentifique. Essas bandas que usam o público adolescente fizeram isso com maestria e a notoriedade veio ao nosso conhecimento por causa que a faixa etária jovem é a consumidora, portanto a juventude-adolecência é a que ta sempre em evidência.
Se teu público for mais velho, é necessário ir ate ele de outro modo, não apenas com a internet e essa pesquisa é trabalho de alguém, não é? Quem é o mais interessado na banda além de o próprio fundador? Se é esperado ter alguém para fazer isso, é bom revisar teus conceitos de custos agora mesmo.
A internet ta ai, é fácil colocar coisa no ar, mas é necessário ter alguma coisa para por no ar. Criar conteúdo. Não adianta só a música, é necessario criar um laço quase afetivo com o ouvinte. Olha que estou partindo do ponto de vista que todo mundo pode achar tua música boa, o que não vai acontecer, porque gosto – já dizia o ditado – é igual a bunda e por isso que tem que se achar o público, se a pesquisa de público foi feita e tu não achou, refaça ou desista.
Pior coisa que tem no mundo é ficar reclamando sentado. Até eu posso fazer isso com o blog, por exemplo.
“Não teve atualização porque não tenho 500 visitantes diários”, e a internet ao natural me responder silênciosamente, “não teve 500 visitantes diários porque tu nem tentou manter isso atualizado.” É essa a mecânica do jogo, não adianta.
A vida é difícil, dura e complicada. Não adanta reclamar, tem de trabalhar ou tocar por diversão, vou dizer que se tu não tem talento para tudo que foi apontado acima, toque por diversão… mas toque! Faça shows quase de graça, toque em todas as oportunidades que os parentes te derem… Toque! Nisso um dia pode acontecer de aparecer um público e esse público querer algo para escutar no carro e tu gravar algo de bobeira e tu ser o rock-star no bairro, que tal? Melhor que nada, né?
Pode também acontecer de tu ser descoberto e o mundo gostar de ti e tu ficar mega famoso. Ué já aconteceu, não é?
Pense como uma regra e não com uma excessão. O que destrói quase todas as bandas não é a falta de notoriedade do mercado fonográfico e sim o EGO e a falta de TRABALHO.
Na Internet todos tem chancer iguais. Mas apenas de ir até a esquina.
Para ir adiante, ainda é necessário saber como a máquina funciona e colocar um “azeitezinho” nela.
Sad But True.
Seria melhor se estivéssemos falando apenas de carne-seca.
Estamos em um prisão, de um certo ponto de vista sim. Mas ela sempre esteve ai, nem imagino como seria o mundo sem ela e acho que ela sempre existirá de um jeito ou de outro.
Acho que fui claro no meu ponto de vista.
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Tags: Bandas, Como ter uma banda, marketing, Opinião, Rádios, Rock, Trabalho, Vida de músico . This entry was posted on Friday, April 30th, 2010 at 19:28 and is filed under Bandas, Musica, Opiniões. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.





April 30th, 2010 at 20:10
[...] Leitura recomendada, vale conferir clicando aqui! [...]
May 5th, 2010 at 18:51
Post foda. Apesar de longo, foda.